As experiências de um aluno do NGHM no doutorado sanduíche

Sempre tive o sonho de fazer o doutorado no exterior, mas não tinha muita informação a respeito e então achava que seria muito difícil. Assim, entrei no doutorado pela Biotecnologia-UFES (programa Renorbio) e desde o início já tinha intenção de fazer sanduíche.

O programa de doutorado sanduíche é aquele no qual o estudante faz uma parte do curso em uma instituição no exterior, com período variável fora do país, no meu caso foi 1 ano e 3 semanas.

Durante meu segundo ano de doutorado, tentei contato com algumas instituições nos Estados Unidos, não tive sucesso com algumas e, estava mais ou menos encaminhado para ir para a University of North Texas trabalhar com um dos maiores pesquisadores da área de genética forense do mundo. Foi então que recebemos um email de um grupo da University of California Berkeley. Dois postdocs no Nielsen Lab, Kirk Lohmueller e Rori Rohlfs, leram um de nossos artigos e queriam colaborar com análises adicionais. Mais tarde eu iria descobrir que estava num lugar muito melhor do que todos que eu estava tentando anteriormente.

Logo pedi a Capes a bolsa de doutorado sanduíche. O processo foi burocrático e um tanto demorado, por isso aconselho começar com alguns meses de antecedência. Há alguns problemas. Por exemplo, contando o valor dos auxílios e da mensalidade, a bolsa da Capes chega a $1.500, mas a UC Berkeley requeria um mínimo de $2.000, assim meu orientador lá teve que me pagar uma complementação. Se ele não fizesse isso, eu nunca teria ido. Mas deu tudo certo e no final de novembro de 2011 embarquei rumo a San Francisco, para passar 1 ano em uma das melhores universidades do mundo que ficava do outro lado da ponte, ou “across the bay” como dizem os habitantes da Baía de San Francisco.

Mas como ir para um país onde você não conhece ninguém, onde as coisas são diferentes? Como chegar lá, como arrumar um lugar pra morar? Eu tive muita sorte, tinha parentes um tanto distantes que moravam em Orinda, cidadezinha localizada a 4 estações de metrô (ou BART, para os mais chegados da SF Bay Area). Eles me acolheram e tiveram um papel importantíssimo na minha chegada e adaptação. Aos que não tem essa sorte, morar nas residências da universidade ou contar com os colegas do laboratório para achar um lugar são boas alternativas. Eles estão acostumados a receber visitantes e sabem como ajudar.

Ao chegar na Universidade, tive logo a noção de que seria o melhor ano da minha vida. O campus era lindo e realizava exatamente o meu sonho de estar numa universidade americana. Era tudo como um filme. Entretanto, ao chegar no lab e conversar (e estrear o inglês que eu achava que sabia) com o grupo de trabalho pela primeira vez, entendi que não era bem o que eu estava esperando. Logo me perguntaram: “Você sabe programar em R?”. Respondi que não, que eu era biólogo e que não sabia nada de programação. Logo senti o olhar deles, olhando um para o outro e talvez pensando “isso será difícil”.

Começou ali a primeira grande mudança de paradigma da minha vida científica. O laboratório era formado por salas com computadores e cheias de biólogos, engenheiros, cientistas da computação, estatísticos, matemáticos, etc… todos com uma coisa em comum: a habilidade de trabalhar com o chamado “Big Data”, grandes bancos de dados como os dados genômicos gerados em larga escala, com ferramentas avançadas de programação e estatística. Dizer que é biólogo não é desculpa para não saber estatística e programação. As ciências biológicas hoje em dia são dominadas por metodologias como sequênciamento de DNA de nova geração e chips de SNP, que geram muitos dados. E o qual é o seu lugar no mercado se não sabe lidar com esses dados? Enviar para um estatístico não é mais opção!

Passei o ano aprendendo programação em R, muitas vezes por mim mesmo com fontes da internet e livros, mas também com muita ajuda do grupo no lab e frequentando aulas. No início eu escrevia ao Dr. Iúri Louro, meu orientador no Brasil, dizendo que eu não tinha ido lá pra isso, que ia pedir pra trocar pra um lab de ‘biologia de verdade’. Mas após alguns meses, eu iria descobrir que não queria fazer outra coisa na vida senão me especializar em análise de dados.

Depois de tudo, me considero ainda um aprendiz, mas agradeço muito ao grupo do Nielsen Lab e todo o Center for Theoretical Evolutionary Genomics por terem mudado minha vida. Descobri um lado totalmente novo da biologia e que vai ser muito presente no meu futuro daqui pra frente.

Meus colegas foram muito mais do que colegas de laboratório, fiz grandes amigos. Eles fizeram com que eu me sentisse mais em casa do que jamais senti, e que ficasse muito triste por estar voltando ao lugar onde nasci. Foram festas, bares, reuniões em casa, viagens, retiros de laboratório, partidas de futebol, até churrascos onde fiz caipirinhas. Foi uma vida muito feliz.

Agora volto ao Brasil para finalizar meu doutorado. Será um novo desafio voltar depois de tudo que aprendi lá. Apesar de estar muito feliz pela volta, também sei que estarei um tanto isolado no lab, pois ninguém aqui faz o tipo de trabalho que agora eu faço.

O próximo objetivo é conseguir financiamento para voltar a UC Berkeley para o pós-doutorado, uma tarefa dificílima. Mas antes disso, tenho uma obrigação mais urgente muito conhecida de todos os alunos bolsistas… deixa eu ir fazer meu relatório final da Capes…

Update feito em 14/02/2013: Fiquei sabendo que a Capes está oferecendo agora um bônus de $400 para quem vai para regiões consideradas com alto custo de vida, Berkeley está entre elas.

Update 2: muitas perguntas sobre os procedimentos de aplicação para bolsa, viagem e outras burocracias tem sido feitas nos comentários. Podem enviar também para vitor.aguiar[arroba]me.com

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